O Cadastro Nacional de Adoção (CNA),
da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), passa por reformulação
para agilizar a identificação de pais e as crianças a serem adotadas em todo o
país.
A juíza auxiliar da Corregedoria,
Sandra Silvestre Torres, disse que um conjunto de medidas estão sendo adotadas
para que até o próximo semestre os dados do cadastro de adoção estejam mais
transparentes e deem maior rapidez aos processos.
A magistrada está à frente do grupo
de trabalho de infância e juventude, instalado pela Portaria n. 36/2016 da
Corregedoria, para fazer essa reformulação dos cadastros.
O CNA é uma ferramenta digital de
apoio aos juízes das Varas da Infância e da Juventude na condução dos processos
de adoção em todo o país lançado em 2008 pela Corregedoria Nacional de Justiça.
Conforme demonstra o cadastro, há
cerca de 7,4 mil crianças cadastradas para adoção no país, ou seja, cujos
genitores biológicos perderam definitivamente o poder familiar.
Existem no Brasil mais de 46 mil
crianças e adolescentes em situação de acolhimento, ou seja, que vivem
atualmente em quase 4 mil entidades acolhedoras credenciadas junto ao
Judiciário em todo o país, de acordo com o Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas
(CNCA).
Transparência e agilidade
Atualmente, o cadastro permite que,
no momento em que um juiz insira os dados de uma criança no sistema, ele seja
informado automaticamente se há pretendentes na fila de adoção compatíveis com
aquele perfil.
O mesmo acontece se o magistrado
cadastra um pretendente e há crianças que atendem àquelas características
desejadas.
De acordo com a juíza Sandra, a
intenção do grupo de trabalho é fazer uma modificação para que esse sistema
rode automaticamente, como acontece com um banco de dados, e elenque
diariamente quais seriam os pretendentes possíveis para a criança que está no
cadastro.
Em seguida, o sistema deverá avisar o
juiz, por e-mail, da existência de um pretende para uma criança cujo processo
está em sua jurisdição e, simultaneamente, informar também por correio
eletrônico – assim como o "sistema push" – para o pretendente
selecionado.
"Isso seria uma transparência
mais absoluta que fará que as pessoas possam ficar mais tranquilas ao saberem
dessa movimentação, porque uma das grandes reclamações é que os pretendentes
colocam o nome e ficam parados e não acontece mais nada, eles precisam estar em
constantes idas à vara por meio de advogados e grupos de auxílio à
adoção", diz a juíza Sandra.
Entre as possíveis mudanças no CNA,
está o acréscimo de alguns campos, como o RG e o CPF, no preenchimento dos
dados das crianças e adolescentes aptos à adoção.
Essa alteração evitaria as guias
duplicadas, que ocorrem quando a criança sai e entra novamente no sistema, por
conta de uma "devolução" após uma adoção, por exemplo.
Segundo o assessor técnico do grupo
de trabalho, Paulo do Amaral, a intenção é fazer uma validação no banco de
dados da Receita Federal.
Para garantir que as crianças e
adolescentes que vivem em abrigos possam ter o seu CPF emitido, as
Corregedorias dos Tribunais de Justiça estaduais têm até o dia 30 de junho para
realizar mutirões voltados à regularização da documentação de crianças e
adolescentes em programas de acolhimento ou em cumprimento de medidas
socioeducativas.
Alimentação dos dados
De acordo com a juíza Sandra, um dos
problemas atualmente é que, conforme demonstrou uma pesquisa da Unicef, mais de
50% dos estados não alimentam ou alimentam de forma indevida o cadastro.
"É preciso levantamento e conscientização
das pessoas que trabalham com os cadastros da importância de alimentarem os
dados para que funcionem de uma forma adequada, pois são vidas que estão
ali", diz.
De acordo com a juíza, a Corregedoria
parte da premissa de que somente quando as pessoas que trabalham diretamente
com o cadastro participarem do debate para sua reformulação os cadastros
passarão a funcionar adequadamente.
Por isso, a Corregedoria realizou
está realizando workshops por todas as regiões brasileiras, com a presença de magistrados,
procuradores e técnicos, para discutir as mudanças a serem feitas – o primeiro
deles foi realizado no início do mês, em Maceió/AL, durante o XX Fórum Nacional
da Justiça Juvenil (Fonajuv).
"No máximo até início do próximo
semestre o cadastro de adoção estará mais transparente e mais ágil", diz a
juíza Sandra.
Destituição familiar
De acordo com a juíza Sandra, existem
diferentes correntes ideológicas que estão em debate atualmente sobre o
processo de destituição do poder familiar (antigo poder pátrio), que muitas
vezes se estende para que se tente realocar a criança com algum parente da
família extensa, por exemplo.
Por um lado, existe a cobrança da
sociedade para que acelere essa etapa e que as crianças fiquem por menos tempo
institucionalizadas em abrigos e, por outro, há aqueles que defendam que
apressar essa etapa poderia significar a criminalização da miséria, já que esta
condição muitas vezes acaba levando as crianças aos abrigos.
Para a juíza Sandra, muitas vezes
essas crianças têm mães com problemas com drogas ou que estão no sistema
prisional.
"Como o problema com drogas está
atualmente classificado com um problema de saúde, equivaleria a tirar uma
criança de uma mãe que tem câncer, a sociedade não acharia razoável isso, mas
vê com bons olhos retirar uma criança de uma usuária de drogas da forma mais
rápida possível", afirma Sandra.
De acordo com ela, essa matéria está
sendo amplamente discutida entre os juízes e na Secretaria dos Direitos Humanos
(SDH), e o CNJ não tem nenhuma orientação ou posição firmada sobre isso.
Apadrinhamento
O apadrinhamento afetivo é um
programa voltado para crianças e adolescentes que vivem em situação de
acolhimento ou em famílias acolhedoras, com o objetivo de promover vínculos
afetivos seguros e duradouros entre eles e pessoas da comunidade que se dispõem
a ser padrinhos e madrinhas.
Para a juíza Sandra, a adoção é uma
das formas de recolocação da criança em uma família substituta, mas não é a
única.
"Hoje nós vemos muitos projetos
excelentes de apadrinhamento, para receber essa criança no seio de uma família
e que não seja só como uma adoção definitiva", diz.
Na opinião dela, a sociedade está
cada vez mais generosa, mais aberta a formas múltiplas e olhares mais
diferenciados.
"Isso é uma evolução extrema, acolher a infância e oferecer
oportunidades na infância para que se torne um sujeito de direito, escolha o
seu futuro e a sua história", diz.
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